Ana Calzavara | Desenredo | 08 out - 21 nov

 
 

Pedro Duarte | A imagem como horizonte: Desenredo, de Ana Calzavara

Fernando Pessoa escreveu, certa vez, que Deus quis que o mar unisse o que estaria até então separado. O poeta falava da aventura histórica pela qual Portugal, seu país, foi ao oceano com suas navegações. Seus versos heroicos enviavam uma mensagem de grandeza: a Terra, antes fracionada, agora seria uma só. O processo colonial no qual se criou o Brasil está nessa história.

Ironicamente, muitas pinturas do Desenredo, da artista brasileira Ana Calzavara, foram feitas em Portugal e ali colheram seu material: a começar, de novo, pelo próprio mar poetizado por Pessoa; mas também com os azulejos ou os pirilampos. Ana olha, e nos faz olhar. Irônico, por isso, não é um mero retorno de uma visão do Brasil sobre Portugal; é que aquela união que sobrepujaria a separação esteja agora criticamente, ela mesma, desenredada em uma multiplicidade de imagens.

Toda a poética de Desenredo, por isso, está nesta intrigante montagem das imagens, que nos acena com a continuidade natural – “como uma onda no mar” – somente para explicitar, em suas descontinuidades, que é artificial. É construção. Isso age em três níveis. Primeiro, cada pintura de Ana pode parecer uma paisagem, mas logo opera um corte decidido, explicitando que a cena é um mirada do olhar, é parcial, um pedaço. Segundo, as pinturas entre si, às vezes, quase se juntam umas às outras, mas só quase: nunca fundam de fato uma totalidade. Terceiro, a montagem não tem uma regra inquebrantável: ela poderia ser, a cada vez, uma outra.

Tanto a produção de cada imagem quanto a associação das imagens permanecem numa espécie de entre: entre a natureza e a cultura, entre a união e a separação, entre a inocência e a consciência, entre a contemplação e a crítica, entre a figuração e a abstração. O olhar, por isso, percorre essas imagens e, às vezes, flutua por suas semelhanças com prazer: reencontra, na pequena luz noturna dos pirilampos de Sintra, pontos brilhantes do reflexo solar das águas do rio Tejo; acha, na estampa azul ondulada dos azulejos, os movimentos das vagas do mar. Outras vezes, entretanto, o olhar é barrado nas dessemelhanças das imagens, que não se juntam de todo, ou, nos casos mais extremos, nem se formam, como se fossem “bugs” ou ruídos no sistema, telas que pifaram. Tudo parece se entregar fácil. Só que não. O poeta vira encontros onde há também desencontros. Não existe beleza limpa.

Repare-se, por exemplo, como há, por um lado, um alinhamento sequencial das pinturas, produzindo quase o efeito de um horizonte que olhamos no mar, seguindo cada quadro tal qual pequenos navios que avistamos da praia; mas, por outro lado, há sempre algum ligeiro desajuste, com uma pintura mais acima ou abaixo, impedindo a formação de uma reta estrita de continuidade. Parece que uma pintura meio passa à outra, meio colide com a outra. Os azulejos meridianos e belos estão por vezes sujos e encobertos. Todo enredo tem um desenredo. É assim que o olhar, aqui, nunca apenas olha, mas pergunta também junto: o que é olhar?

Na calma da neblina, no vagar do mar ou no bruxulear dos vagalumes, nosso olhar parece convidado a um ritmo menos frenético ou acelerado do que o habitual, menos evidente e mais ambivalente. Temos que atentar – como já tinham apontado metaforicamente o cineasta Pier Paolo Pasolini e depois o filósofo Didi-Huberman – para a sobrevivência da luz intermitente dos pirilampos, em meio à ofuscante luminosidade capitalista midiática. Nessas pinturas, que evocam tudo isso, idem. O tempo, que iria para frente, retrocede. O espaço, que seria transparente, turva.

Há algo que poderia ecoar até as experiências infantis: aquele tédio contemplativo da criança, no qual não nos perguntamos apenas qual será a próxima imagem, mas nos deixamos demorar nesta ou naquela. Há certa leveza insuspeita nas pinturas de Ana, que têm a ver com um jogo proposto ao olhar, com um gostar que pode brincar com elas. Ver como se fosse uma criança, talvez, mas a ênfase posta neste “como se”: não somos mais. Não se aprende a andar uma segunda vez. Caminha-se – inclusive para ver melhor, para deslocar, desentender, desenredar.

Vistas de longe, algumas pinturas de Ana podem parecer fotografias, só que elas atraem o olhar para perto. O corpo precisa caminhar até elas. E aí, ao contrário de certas imagens famosas de Gerhard Richter, afirma-se a pintura, e até mesmo o gesto. Não se esconde, aqui, a manualidade pictórica. Luzes e cores formam assim um mundo de imagens, cujo referente externo pode ir de antigos azulejos portugueses à modernidade do qr code globalizado, mas que só se realizam, aqui, como pintura. Nunca estamos na coisa em si mesma, mas já na imagem.

Essa imagem é como o horizonte: ela se encontra sempre à vista dos nossos olhos, mas nunca ao alcance dos nossos passos, nos termos do filósofo Eudoro de Sousa, que nasceu em Portugal e viveu no Brasil. Nunca a agarramos; essa é a condição para que brilhe a sua luz no mundo, como a dos pirilampos. Na falta do sol da verdade absoluta, resta-nos produzir uma luz assim. Guimarães Rosa escreveu, no conto Desenredo, que “todo abismo é navegável a barquinhos de papel”.