Daisy Xavier | Anfi | 30 jul - 04 set
Fred Coelho | Anfi ou Da arte como trama
Nesta exposição, o que vemos pulsando nas telas e desenhos exibidos funciona como um campo expandido. Afinal, suas tramas e traços estão, também, fora deles. Não se trata, por óbvio, de reclamar o estatuto de uma pintura figurativa do mundo, afirmar que há algo concreto para reconhecermos. Daisy Xavier não apresenta aqui a imagem de algo visto como tal, mas sim de um algo visto transformado (transtornado?) pela pintura.
Além disso, não seria incomum tratarmos tais trabalhos no âmbito de uma abstração informal. Linhas fortes, conectadas umas às outras por regiões de tinta ora densas, ora aguadas, sobrepostas por planos de cor feitos em aquarela, cujas áreas de opacidade e contrastes produzem tênues jogos entre frente e fundo. Os traços escuros são marcas de matérias densas, em que breu, bastão de óleo, asfalto ou tintas industriais dão corpo às tramas oscilantes. As vezes vemos um grid, as vezes ele se dissolve em movimentos que contrariam a rigidez de suas geometrias. As vezes algo se organiza espacialmente para fora do plano, vazando de suas bordas em indicação de continuidade, as vezes parece que tudo flutua em equilíbrio incerto. Suas estruturas estão vivas, móveis, e falam de algo que transborda o que vemos. Como tudo na vida, aliás.
Eis porque a escolha do título por parte da artista é certeira. Anfi, isto é, o que organiza em um só o duplo, que amarra em um mesmo campo o dentro e fora, algo que não se estabiliza no uno, aquilo que incorpora o que se encontra no entorno. O sufixo grego evoca características partilhadas de duas espécies – ou espaços. Dos traços firmes e urgentes que Daisy provoca nestes trabalhos, temos uma série de diálogos em direção ao que não está ali. Há no olhar da artista uma imagem construída por ela, uma escultura em progresso, uma teia de tramas metálicas que a fazem pintar as dobras dimensionais da mesma. Assim, vemos sem ver a escultura, ou melhor, vemos algo se fazer diante dos nossos olhos, porém anfíbia, entre planos, ou melhor, instalada no nó dos planos. Vemos tudo ao mesmo tempo, em diferentes dimensões.
Para quem conhece a acompanha a trajetória da artista, sabemos exatamente que tal impasse espacial – e existencial – sempre esteve presente. Há o nó, isto é, aquilo que junta, coze, alinhava, sustenta e, ao mesmo tempo, expande, indefine, inventa. São redes cujas estruturas se transformam de acordo com os materiais que são convocados para tal experimento. Daisy se interessa pelo que conecta, pelo movimento entre planos, trabalhos que somam ritmo e risco, leveza e peso, solidez e aquosidade.
Assim, pintar o nó, dar a ele corpo na cor e no gesto, se torna um campo novo de exploração. Se em outros momentos da trajetória de Daisy é a água que faz o papel de matéria sensível aos movimentos e desenhos do mundo, aqui podemos, por analogia, pensar que a escolha pelo linho como material delicado e cuidadoso faz o papel dessa matéria que o gesto do corpo riscará em uma gestualidade expressiva. Algo aqui é urgente, algo é imediato (isto é, sem mediação) na relação entre o que se vê e o que se mostra. Se uma escultura ronda as telas e desenhos, não é a partir de uma demanda estrutural fixa, e sim de uma organicidade. São os nós que se tornam as sinapses desses gestos velozes. Como não reparar, por exemplo, que é justamente nesses pontos de conexão entre as “linhas de aço” dessa trama que vemos a pintura ganhar mais movimento, mais dinâmica de cores e traços?
A rede é um tema central dentre a humanidade, seja em sua função original de utensílio milenar, seja na virtualidade da civilização digital contemporânea. Indo além desses sentidos, é a nossa mente que surge como modelo primordial para pensarmos através de conexões velozes, fluxos sem direção certa, angústias e certezas sobre discursos, imagens, ideias e seus sentidos. Na profícua obra de Daisy Xavier, tais conexões sempre foram trabalhadas em muitas camadas, modos e materialidades. Nesta exposição, a investigação segue ativa quando observamos o dinamismo que se instala nos pontos em que as linhas se entrecruzam. Talvez um momento corriqueiro para a prática pictórica da artista, esses ganchos-que-se-tornam-nós-que-se-tornam-manchas-de cor são, simultaneamente, o que estrutura a escultura fora da tela e desestrutura sua possibilidade de estabilidade. São pontos em que tudo gira, em que se perdem os limites entre as partes, em que a mão parece mais ligeira e resolutiva. São, justamente, as sinapses da pintura.
Ao ser perguntada sobre este momento de seu trabalho, sobre os gestos expressivos, sobre os traços urgentes, sobre a pintura na borda entre o linho e o breu, Daisy respondeu, após uma breve reflexão: talvez as coisas estejam mais densas. A frase, que se remeteu ao percurso do seu trabalho, inevitavelmente soou, também, anfíbia. Sim, a trama se adensa e os tempos estão densos. Tal densidade, porém, não se torna peso informativo ou missão restauradora. Não há nostalgia de nada para além do desejo de deixar as coisas em movimento, de ficar com o problema, de permitir que a escultura fixa dance pelas cores, enfim, de fazer da arte essa trama que, quanto mais firme o nó, mais livre os sentidos.
