Gabriela Machado | Tremer, tremer, é sempre assim| 24 mar - 15 mai
Pedro Duarte | Formas em flor
(Professor de Filosofia da PUC-Rio, Pesquisador do CNPq e da Faperj)
Como não se encantar com essas formas em flor? Os pequenos desenhos de Gabriela Machado guardam, em sua escala, uma solicitação para que o olhar deles se aproxime – e, de perto, já nem parecem assim pequenos, a não ser por comparação com outras obras da artista. Nossa percepção flagra seus contornos maleáveis, derivados da cor, que não é um mero preenchimento dentro das linhas; é o movimento dos seres se fazendo mundo nas paredes – e das paredes se fazendo mundo.
Mesmo que, na sua elaboração, os desenhos menores tenham servido para o treino da artista, antes que ela atacasse superfícies de grande escala que supostamente não permitiriam erros, eles não devem ser vistos como meros instrumentos para se chegar lá. Não. Seguindo o estilo moderno, não só o inacabado pode ser mostrado: tudo que é mostrado tem algo de inacabado. Como diz a artista, nesse sentido, não há erros – eles serão integrados ao trabalho, ao invés de escondidos.
Nem se determine a escala, aqui, apenas pela dimensão sociológica do Brasil, que nas obras de arte pequenas teria refletida uma resignação ao âmbito privado, uma intimidação a uma presença social mais forte e de visualidade impositiva, um acanhamento formal frente ao âmbito público. Por mais que nas obras maiores, como em outras da artista, possa-se vislumbrar o gesto largo, o que se pede aqui é a corajosa proximidade para a delicadeza com uma intensidade plástica concentrada, e um corpo que deverá andar para perto do que se vê; e será recompensado com a intimidade de um erotismo plástico que é tudo, menos domesticado.
Nisso, chama a atenção no trabalho de Gabriela Machado uma linguagem que experimenta a si própria, mas encontra uma insuspeita beleza cotidiana. Surge como se estivesse se fazendo em ato, mas aparece aos olhos com surpreendente plenitude lírica. Essas formas vão florescendo assim entre a abstração da tinta por si e um apelo figurativo, sugerindo plantas e seres em cópula, que se tocam e se misturam eroticamente. O movimento das cores – em geral menos estridentes do que em outras obras da artista, a não ser por exceções, como um rosa aqui e acolá que grita mais alto – abre-se para uma natureza com formas se formando.
Se “as flores de plástico” não morrem, como cantam os Titãs, são, contudo, estáticas, com um artificialismo barato. Já as flores pintadas, se tampouco morrem como as da realidade, atualizam em si o movimento de vir a ser da natureza, de uma vida que dança ritmada para os olhos, como se fosse na cadência do samba. Suas cores envolvem umas às outras, circundam, escorrem, entram, mais que disputam; ainda que umas distingam-se de outras, o tecido é sem fissuras, porque inteiro.
O erotismo, como dizia Georges Bataille, é uma vontade de continuidade diante das divisões que nos asseguram que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa; ele aproxima o que seria somente separado, torna incerta a compartimentação dos seres. Essas obras de Gabriela Machado, na sua sensualidade, têm algo disso, mas curiosamente não resulta daí o clima sombrio da transgressão, e sim uma luminosidade mais solar. Mesmo assim, nós não sabemos sempre, ao passar de uma cor à outra, se aquela área de tinta pertence à anterior maior, de que ela é parte; ou se está fora dela; ou se só se situou a seu lado. Parecem seres encostando, invadindo, roçando, apertando, curvando, insinuando-se, agarrando, entrando um no outro.
Daí que, nesses desenhos, ao contrário do que ocorre com outras obras de Gabriela Machado, haja pouco espaço branco de papel ou tela sobre o qual a tinta se movimenta: a cor tomou conta de quase tudo – sem deixar, porém, de jogar com a perspectiva. Sempre um diálogo com Morandi. Cada cor parece se precipitar ou recuar no espaço, e ao mesmo tempo os gestos com elas não tentam se esconder, fazendo o olhar percorrer para cima e para baixo, ou para os lados; até, quem sabe, repousar ao fim e apenas contemplar essas flores em formas, essas formas em flor.
Seria possível enxergar, então, um curioso chifre perdido na forma do caule de uma planta? Ou, quem sabe, olhos de um louva-a-deus estranho no que seria uma flor? Ou será que pétalas podem parecer asas de um inseto? O filósofo Emanuele Coccia ensinou que, “por causa dessa continuidade na transformação, toda espécie compartilha com centenas de outras uma infinidade de traços”. Tudo pertence à mesma vida, que se expressa de vários modos e “gosta de transitar e circular de uma forma em outra”. Esta é a vida que temos aqui diante de nós.
Nas obras de Gabriela Machado, assim, o mundo aparece sem cinismo, e a recusa a seu barulho ensurdecedor opera na paciência de um olhar dia a dia. Isso ajuda a lembrar – pela sensibilidade visual, e não pela ilustração crítica de problemas sociais – que pode ser que, atualmente, tudo desespere, mas também, quem sabe, que desespere em flor, como a primavera cantada em versos de Zé Miguel Wisnik.
A primavera é quando ninguém mais espera
E desespera tudo em flor
A primavera é quando ninguém acredita
E ressuscita por amor
SERVIÇO
Exposição de arte contemporânea
Título: Tremer, tremer, é sempre assim
Artita: Gabriela Machado
Local: Maneco Müller : Multiplo Galeria
Exposição: De 25 de março de 2026 (abertura às 18h) até 15 de maio de 2026
End.: Rua Dias Ferreira, 417/206 - Leblon - Rio de Janeiro – CEP 22431-050
Visitação: De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h30 (sábados, sob agendamento)
End: Rua Dias Ferreira, 417/206 – Leblon – Rio de Janeiro
Tel.: +55 21 2259-1952
Entrada franca
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