Ana Holck | Imprevistos | 21 mai - 17 jul

 

Daniela Labra |  Imprevistos

 

 

 

A escultora carioca Ana Holck é um dos principais nomes de sua geração no Brasil, dedicando-se há mais de duas décadas a uma pesquisa com rigor e experimentalismo. Sua obra se engendra nos anos formativos em arquitetura, em estudos artísticos na escola do Parque Lage e na academia, e traz elementos que conferem leveza às peças: o movimento como marca do processo, alinhado a uma curiosidade pela exploração da forma no espaço. 

 

Há quase dez anos, Ana se aproximou da cerâmica. Após uma trajetória investigando de modo mais racional o concreto, ferro, e formas retilíneas, com o barro resignificou a labuta no ateliê, em novas relações entre matérias orgânicas e inorgânicas, tensões entre retas e curvas, a dualidade entre fragilidade e dureza de materiais – em uma silenciosa metáfora da vida, cheia de imprevistos, impossíveis de conter. Ana Holck constrói estruturas que desafiam a estabilidade formal, mas que são sólidas, ativando a percepção corporal do espectador. Seu trabalho dialoga com o discurso escultórico contemporâneo, mantendo fortes qualidades poéticas e experienciais, em um conjunto de obras que amadureceu e se abriu ao risco.

 

Nesta entrevista, via Meets, Ana fala de suas referências, do processo criativo, projetos e das questões teóricas e práticas que levaram às esculturas mais recentes. Investigando estruturas espaciais, tensões matéricas e experimentação da linguagem da escultura, ela estabelece uma sofisticada relação entre materialidades, a expansão da forma, e a necessidade vital do gesto artístico, tal como se pode apreender desta conversa.

 

Daniela Labra

 

Daniela Labra: Ana, obrigada por essa entrevista, que permite ao público aproximar-se do seu trabalho e pensamento. Começando com o título, “Imprevistos”. Como surgiu?

 

Ana Holck: Ele surgiu quando perdi uma pessoa próxima abruptamente. Nesse momento, as obras ganharam títulos mais urgentes. Imprevistos carrega o sentido de urgência. E isso começou a acontecer mais na vida e no trabalho: quanto mais você se expõe e se submete ao mundo externo, mais as coisas saem do seu controle. Eu, que sempre fui contida, racional, de repente me vi num curto-circuito… E a cerâmica tem por natureza essa urgência, ela seca, demanda um ritmo. É um material vivo que exige dedicação. São muitas etapas, envolve riscos e momentos em que tudo pode dar errado. Eu conto com os imprevistos, aprendi a lidar com eles.

 

D.L.: Quando era bem jovem você fez dança contemporânea, algo que de certa forma influenciou o trabalho escultórico, e depois estudou arquitetura, que é uma atividade mais racional e matemática. De que modo hoje suas esculturas reúnen aspectos do corpo e da investigação do espaço?

 

A.H.: Quando me formei na arquitetura, me dediquei a questões espaciais, instalações. A escultura só apareceu depois, quando quis ter trabalhos numa escala que eu pudesse manipular e guardar.

Eu trabalhei muito a questão do corpo que experimenta o espaço. E, de certa forma, isso estava ligado ao próprio fazer.  Nas instalações, havia um envolvimento físico na montagem das obras, que reapareceu nas montagens dos meus trabalhos recentes, onde passo o metal dentro da cerâmica. Neste processo, percebi uma movimentação gerada pela própria escultura, e decidi filmar a montagem de um trabalho em time-lapse. Botei a câmera no tripé, e o vídeo viralizou. A partir daí, comecei a filmar e observar esta movimentação durante as montagens, que tinham algo performático.  A vida no atelier é de experimentação. É o grande canteiro de obras, né?


D.L.: E o que define, para você, a escultura hoje em termos de linguagem, categoria e conceituação?

A.H.: Eu parei um pouco de ficar pensando sobre isso, à medida que eu tinha que fazer o meu trabalho. Acho que o artista acaba entrando em um universo mais singular, permeado pelas coisas que o rodeiam e estão acontecendo. Acredito numa sensibilidade intrínseca ao tempo em que se vive, que converge em arte.

Noto hoje uma crise muito grande, estamos num mundo extremamente virtual. Percebo um retorno ao fazer, a uma manipulação concreta do real. Tudo isso está ligado a um adoecimento da sociedade. De certa forma, eu adoeci e senti necessidade de fazer coisas com as minhas mãos. Fui para a cerâmica porque tive a necessidade de controlar o meu processo. Aprender a técnica da cerâmica leva tempo, mas a questão central é fazer isso funcionar dentro da sua linguagem e pensamento.


D.L.: Uma situação em que uma simples alteração de projeto no atelier fez surgir um novo trabalho, deu sentido a uma pesquisa que você já estava fazendo...


A.H.:  Existem trabalhos que são ‘projetados”, muito racionais, é um caminho possível, de onde eu vim. Mas quando se está no atelier, as coisas acontecem. Talvez seja em cima dessa experimentação, da tentativa e do erro, de onde surgiram as coisas mais transformadoras. Há momentos em que você se submete ao processo, aos acidentes - e precisa estar pronta para vê-los como possibilidades. Eu já fazia cerâmica, quando cheguei aos Entroncados. Estava procurando fazer um trabalho, outro, até que um imprevisto mudou tudo. É impressionante quando o trabalho te mostra algo novo. Uma simples mudança de posição de uma obra me abriu todo um universo.


D.L.: Você trabalha em escalas diferentes, peças menores e projetos de instalação. Você se preocupa com a característica modular da escultura? As peças menores podem ser entendidas tanto como indivíduos quanto partes de um corpo maior?


A.H.: O módulo e a repetição, com pequenas variações, que saem da ordem e do controle, me interessam muito. O módulo é uma espécie de mecanismo para mim. Com a cerâmica, ele se tornou mais central, como possibilidade de aumentar a escala, mas não há uma regra. Alguns trabalhos já surgem como embriões de uma expansão, outros não. Às vezes, a visualização da expansão, de que o trabalho pode acontecer numa outra escala, vem muito tempo depois.


D.H.: E se você pudesse realizar um novo projeto em breve, o que você idealizaria?


A.H.: Quando comecei a fazer cerâmica, precisei repensar a escala do meu trabalho, algumas vezes ampliando e outras reduzindo.
 Eu demorei muito a conseguir uma escala maior com a cerâmica. As pesquisas que comecei e interrompi, muitas vezes retornam. A possibilidade de realizar instalações site-específic, com impacto físico e uma grande escala tem me interessado muito, mas eu não abriria mão da minha prática de atelier. Acho muito interessante trabalhar em várias escalas, e na verdade, uma não exclui a outra.

SERVIÇO
Exposição de arte contemporânea
Título: Imprevistos
Artita: Ana Holck
Local: Maneco Müller : Multiplo Galeria
Exposição: De 21 de maio de 2026 (abertura às 18h) até 17 de julho de 2026
End.: Rua Dias Ferreira, 417/206 - Leblon - Rio de Janeiro – CEP 22431-050
Visitação: De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h30 (sábados, sob agendamento)
End: Rua Dias Ferreira, 417/206 – Leblon – Rio de Janeiro
Tel.: +55 21 2259-1952
Entrada franca
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